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Para Pensar – Crítica a Arte Contemporânea

maio 15, 2009

(…)
A arte é uma forma de interação com o mundo, e sua prática é terapêutica a todos, até mesmo pelo simples axioma Machadiano: “Precisamos matar o tempo, ou ele nos mata.”

E desenhar, pintar ou esculpir são uma ótima forma de matar o tempo. Em mais de um sentido: se no século XVII o pintor holandês Vermeer matava o tempo desenhando, suas obras driblaram o tempo, eternizando o artista. O tempo não matou Vermeer, que ainda está entre nós.

(…) minha briga não é com os artistas contemporâneos; mas com a mídia e os cadernos culturais, que dão um espaço hegemônico a instalações e abstracionismo. Inclusive, chegando a boicotar  a boa arte figurativa, talvez por temer que a comparação fizesse o público ver que tem sido constantemente logrado.

Alguém pode argumentar que não há como estabelecer um parâmetro entre estilos tão díspares quanto, digamos, pintores da renascença e abstracionistas americanos. Sei que são mundos completamente diferentes, a pintura perdeu a necessidade de ser uma representação documental por causa da fotografia, mas parâmetros sempre existiram. Basta respeitar os contextos.

Um homem de 1,80 metro é um sujeito alto? Na geração do meu pai era, hoje em dia é comum. Na Suécia 1,80 m deve ser a altura média; na Indonésia deve ser bem alto; na Itália do período gótico seria um gigante. Olha como traçamos um parâmetro entre mundos completamente diferentes. E sempre existiram mais altos e mais baixos, mesmo antes de se convencionarem medidas como pés, polegadas ou centímetros. As medidas são apenas um critério.

Duccio, artista italiano do século XIV, pintava bem? Muito bem. Na sua época a questão da perspectiva não estava bem resolvida, o conhecimento de anatomia não pode ser comparado com o que o Renascimento mostraria duzentos anos depois; mas Duccio estava entre o que havia então de melhor. E resistiu ao crivo dos séculos, sendo grande até hoje.

Expressividade, composição das imagens, uso das cores, anatomia, perspectiva, estes são alguns critérios da pintura. (…).

Alguém pode perguntar: E a criatividade, o senso de observação, a inserção de caracteres pessoais na obra, a interação com o tempo em que se vive, não são critérios para avaliar uma obra visual?

Sim, é claro. Mas estes são critérios pertinentes à todas as artes. Aqueles que listei antes diziam respeito apenas às artes visuais. Uso das cores, anatomia, etc. não dizem respeito à obra de um músico, ou um escritor. Os critérios destas artes são outros, e para saírem-se bem os artistas destas áreas devem dominá-los.

Só o conhecimento pleno de seu métier liberta o artista para dar asas à imaginação. Não gosto de muita coisa que Picasso fez nas décadas de 20 e 30,  mas é certo que se ele alcançou a libertação do jugo da forma foi justamente por dominar esta mesma forma em sua plenitude.

Hoje em dia, qualquer grafiteiro de quinze anos quer desconstruir. Não teve nem tempo de aprender a desenhar um pé, mas quer transgredir – embora nem mesmo saiba a que ele quer transgredir.

Uma analogia, para realçar a importância dos critérios: no futebol, (…), quando um jogador atinge outro é falta, punida com tiro livre direto. Uma falta mais violenta é punida com o cartão amarelo, a repetição de falta violenta deve ser punida com o cartão vermelho, que acarreta na expulsão do jogador faltoso.

(…)
Pode-se alegar que com a abolição dos critérios se criaria um novo esporte: um porradobol, ou canelobol, que seria uma evolução e segmentação do futebol, como o são o futsal, o futvôlei. Tudo bem. Só que os astros do futsal e do futvôlei não têm, e acho que jamais terão, o mesmo reconhecimento que os craques dos gramados. Seja no número de paixões que despertam, seja no salário que recebem. Nas artes plásticas é o contrário. O filho rebelde ganha mais que o pai milenar, seja em espaço na mídia, espaço físico para exposições, seja em dinheiro pura e simplesmente. Tudo isto, em imensa parte, por causa do beneplácito da mídia.

Se a sociedade contemporânea procura abolir os critérios da pintura, talvez seja justamente por reconhecer que através deles não tem como competir com o passado. O que não é verdade para todos, até porque não há uma competição direta: o fato de eu saber que Rembrandt foi superior tecnicamente ao nosso contemporâneo Lucian Freud não me impede de gostar muito do segundo. E além de Freud, há muitos artistas que nos dias que correm seguem com qualidade a tradição figurativa – embora constantemente boicotados pela mídia, que mais e mais se vê voltada para um conceito algo estranho, fluido e volátil, que é este de “mercado de arte”. Arte é uma mercadoria? Também o é, claro, visto que pode ser comprada ou vendida, mas não é também uma expressão de sentimentos, idéias, saber? Deveria ser julgada pelo seu valor pecuniário ou pelo seu valor artístico?, como pode ser visto no livro de James Gardner, Cultura ou Lixo? (Culture or Trash?, Versão em português de Fausto Wolff, Editora Civilização Brasileira.)

Até porque este valor pecuniário é estabelecido num certo conluio marchands/críticos

Assim, na selva do vale-tudo contemporâneo os critérios seculares foram substituídos por um único e novo critério: bom trânsito com a mídia. E isto se consegue de muitas formas: no período de formação do artista – que é cada vez mais breve – entra-se para grupos e “escolas de artes visuais” que sigam os ditames da moda e já tenham espaço cativo nos periódicos; chama-se críticos de jornais para escrever textos de livros-portfólios, catálogos ou exposições – pois cada vez mais, não há arte visual contemporânea sem texto. A arte já não se explica por si própria, é preciso um texto para tentar ordenar aquele caos e traduzi-lo ao público.

Mais uma vez digo: minha briga não é com os artistas. Não concordo com a idéia de buscar fama e mercado em vez do saber. Mas a opção é deles, que fiquem em paz com suas consciências. E quanto a buscarem a aproximação e simpatia de críticos, eu não seria louco de os censurar por isto; o marketing e o cultivo das boas relações são necessários à sobrevivência do artista, ainda mais num mercado pequeno como o brasileiro. Minha crítica é aos críticos, que aceitam serem cortejados com festas, presentes, etc.

Um crítico que escreve por encomenda para determinados artistas sentir-se-á livre para criticar estes mesmos artistas depois? Ou procurará manter sempre um relacionamento cordial para no futuro obter novos “bicos”?

Enquanto isso, artistas de fora das panelas têm seu talento negado. E como isso é feito? Ora, os críticos de arte não podem falar mal de pintores figurativos que tenham evidente conhecimento de seu ofício. Até porque, se os críticos falassem mal, abririam espaço para uma resposta, geraria polêmica, e isso não interessa a aqueles que têm nas mãos, para usar ao seu bel prazer, uma das mais mortíferas armas de todos os tempos: a mídia. Assim, certos críticos adotam uma postura extremamente hipócrita: simplesmente não mencionam nunca a existência de determinados artistas. (…)
Em 2001 a exposição do espanhol Joaquin Sorolla no Rio de Janeiro foi ignorada pelo caderno cultural de um dos maiores jornais do Brasil. (…). 

 A vítima, quem sofreu com o silêncio sobre a exposição, foi o público carioca, que perdeu a oportunidade de ver uma grande obra.

E isto vive acontecendo em escala menor, com artistas nacionais, vivos, que se vêem privados do contato com o público, uma das metas da arte.

(…)

E é justamente uma homogeneização, um nivelamento por baixo que todo o sistema de ensino de artes, aliado ao despreparo/manipulação dos críticos está criando. Os efeitos já se fazem sentir em todas as exposições e galerias. Se não se lutar para reverter este quadro, estaremos perdendo décadas, dedicando espaço exagerado ao descartável. Depois será trabalhoso para recobrar o tempo perdido. Poderemos acabar tendo que, como no século XIX, importar professores europeus para vir aqui ensinar desenho e pintura, pois o conhecimento já adquirido por alguns nomes está sendo varrido para debaixo do tapete, em prol do oba-oba pós-moderno. Ou alguém acredita que autodidatismo e o do it yourself vão continuar sendo a tônica indefinidamente, e este troço de “professor” é coisa do passado?
(…).

Maurício Dias – http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.aspcitado por  Yeda Arouchehttp://yedaarouche.arteblog.com.br,

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2 comentários

  1. Será que arte virou bem de consumo?

    Parece que as obras antigas serão sempre as melhores mesmo se Van Gogh vivesse em um tempo como o nosso cheio de mídia e capitalismo a flor da pele.

    Da mesma forma einstein, picasso, newton, bethoven, leonardo da vinci e outros sábios da humanidade cada qual em sua área de atuação.

    Quando se posssui talento não importa o que a mídia faz: o seu talento será reconhcido por aqueles que sabem do que estão falando.

    Você falou em metier, o que é isso?

    Será que é possível aprender a pintar sozinho?

    Quanto aos grafiteiros, acho que se a educação fosse de qualidade, estariam pintando obras de arte pelos muros e isso seria valorizado, talvez.

    Gostei do seu blog, sempre que puder estarei “pintando por aqui”, abraços.


    • Exatamente Rômulo, na verdade o objetivo deste texto, muito bem escrito por Mauricio Dias, é refletir sobre os “conceitos” que a mídia nos impõe e o que verdadeiramente existe por trás das “críticas de arte”.
      Aqueles que realmente tem paixão pela arte e sentem prazer em pintar uma tela ou realizar um outro trabalho artístico, não valorizam as criticas, e nem os críticos de arte. Apenas se sentem realizados ao ouvir comentários sinceros do público (leigo ou não) que admira o seu trabalho.
      Você perguntou sobre Metier. Metier é a técnica do artista plástico, aquilo que ele aprendeu ao estudar artes plásticas. Diferencia-se do dom ou do talento do artista. Isso talvez responda a sua segunda pergunta. Desenho e pintura exige técnica (metier), dom e talento talvez sejam essenciais, mas o conhecimento artístico, a técnica, o metier são extremamente importantes.
      Rômulo, gostei muito da sua visita e principalmente do seu comentário,
      Espero que sempre “pinte por aqui”, mesmo!
      Abraços
      Cristina.



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